{"id":5454,"date":"2019-05-05T10:38:43","date_gmt":"2019-05-05T10:38:43","guid":{"rendered":"http:\/\/jsdacores.pt\/front\/?p=5454"},"modified":"2019-05-05T10:38:43","modified_gmt":"2019-05-05T10:38:43","slug":"as-marias-eunice-pinheiro-sousa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jsdacores.pt\/front\/opiniao\/as-marias-eunice-pinheiro-sousa\/","title":{"rendered":"As Marias &#8211; Eunice Pinheiro Sousa"},"content":{"rendered":"<p>A vida da gente \u00e9 feita de Marias. A Maria M\u00e3e, a Maria Tia, a Maria Irm\u00e3, a Maria Prima.<\/p>\n<p>Na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o do <em>Produtor Terra Nostra<\/em>, pude recordar uma Maria muito querida, atrav\u00e9s do seu filho Eduardo Pinheiro Soares. A minha tia Maria das Neves que, como diz o filho, uma pessoa muito esperta e querida de todos, que o apoiou sempre na sua luta e entrega \u00e0 lavoura. A minha tia deixou-nos muito cedo, mas cresci a ouvir as hist\u00f3rias que marcam uma vida e nos deixam um registo da nossa heran\u00e7a geracional. Grande parte destas hist\u00f3rias chegaram-nos pela minha av\u00f3, a Maria Nat\u00e1lia. Que tamb\u00e9m recordava a sua m\u00e3e, Maria In\u00eas.<\/p>\n<p>\u00c0 semelhan\u00e7a da minha tia e da minha av\u00f3, a minha bisav\u00f3 Maria In\u00eas foi uma mulher forte, de not\u00e1vel intelig\u00eancia e vis\u00e3o muito \u00e0 frente do tempo de uma mulher que vivia num meio rural, nascida na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo passado. Sabia ler e escrever irrepreensivelmente e com um discurso claro e fluente. Era ela que instigava o meu bisav\u00f4 Ant\u00f3nio a investir e ela pr\u00f3pria negociava os financiamentos, protegida no seu xaile, num saco uma laranja e uma capiada de m\u00e3o de milho, apanhava o charamb\u00e3o e ia de Ponta Gar\u00e7a ao Banco de Portugal, em Ponta Delgada, negociar com os Doutores de igual para igual, muitas vezes tendo de pernoitar ao relento.<\/p>\n<p>M\u00e3e de sete filhos, a primog\u00e9nita a minha av\u00f3 Maria Nat\u00e1lia herdou-lhe os tra\u00e7os, a for\u00e7a de trabalho, a determina\u00e7\u00e3o independente, a intelig\u00eancia rara numa mulher que ainda nasceu num meio e \u00e9poca que n\u00e3o era permitido ao seu g\u00e9nero sonhar e concretizar. Para a minha av\u00f3 estas proibi\u00e7\u00f5es diziam pouco. Casou e teve tr\u00eas filhos, mas fez uma vida de luta e trabalho que marcou uma gera\u00e7\u00e3o. Primeiro na ilha de Santa Maria, para onde foi morar ap\u00f3s o casamento e l\u00e1 ficou, um tanto a contragosto, durante vinte anos. Na recusa do meu av\u00f4 Alfredo em regressar, a minha av\u00f3 f\u00ea-lo sozinha. De Santa Maria trouxe o neg\u00f3cio da massa sovada que l\u00e1 iniciara e, novamente em Ponta Gar\u00e7a, empregou muita rapariga, jovens adultas, a quem ela aconselhava sempre que nunca deixassem de trabalhar pela sua pr\u00f3pria autonomia financeira.<\/p>\n<p>A minha av\u00f3 Maria Nat\u00e1lia n\u00e3o gostava l\u00e1 muito de uma figura pol\u00edtica. Penso que n\u00e3o incorro em pecado algum em dizer, sendo um facto verdadeiro, que sempre que o ilustre socialista M\u00e1rio Soares aparecia na televis\u00e3o, seguiam-se um conjunto de improp\u00e9rios, dos quais ela n\u00e3o se orgulhava e que a faziam apagar o aparelho. A minha av\u00f3 Maia Nat\u00e1lia era do PPD, do partido de S\u00e1 Carneiro.<\/p>\n<p>Numa altura em que muito se fala da participa\u00e7\u00e3o das mulheres tamb\u00e9m na pol\u00edtica, em que os regimes de quotas criam um sistema de obrigatoriedade na coloca\u00e7\u00e3o de mulheres nas listas aos mais variados \u00f3rg\u00e3os de governa\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, fosse a minha av\u00f3 Maria Nat\u00e1lia uma mulher deste tempo teria ela o lugar que desejasse. N\u00e3o por uma quest\u00e3o de formalidade imposta, mas pelas demonstradas provas de capacidade vision\u00e1ria, da sua sabedoria vivida, pela sua postura e presen\u00e7a que a ningu\u00e9m escapava, mas, acima de tudo, pela forma desprovida de vergonha com que ela assumia a resolu\u00e7\u00e3o de um assunto, fosse ele qual fosse. A resposta nunca lhe faltava, asseverava categoricamente quem se lhe impusesse num contr\u00e1rio desonesto ou descabido. A filha mais velha, n\u00e3o invejou a condi\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero dos irm\u00e3os. Tamb\u00e9m com eles foi prova de uma for\u00e7a de esp\u00edrito maior e exemplo conselheiro.<\/p>\n<p>Fosse a minha av\u00f3 Maria Nat\u00e1lia uma mulher deste tempo e poder\u00edamos conhecer uma mulher de \u00edmpar lideran\u00e7a. N\u00e3o tenho d\u00favidas que Social Democrata.<\/p>\n<p>As Marias da gente, contam-nos muitas hist\u00f3rias. Sintamos orgulho e cres\u00e7amos com elas, que no seu tempo raras oportunidades tinham e, ainda assim, muitas conquistas alcan\u00e7aram. Estas Marias n\u00e3o se lamuriaram da sua condi\u00e7\u00e3o, da sua vida fizeram prova de que a igualdade e os direitos assistem a todos, sem distin\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero. Mas fizeram-no vivendo, fizeram-no sendo mulheres, m\u00e3es, filhas, irm\u00e3s.<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m sou Maria, e com elas espero ter herdado e aprendido mais do que um nome.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vida da gente \u00e9 feita de Marias. A Maria M\u00e3e, a Maria Tia, a Maria Irm\u00e3, a Maria Prima. 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